O Evangelho anuncia a vinda do Salvador como "grande alegria que o será para todo o povo" (Lc 2,10), alegria espiritual sobretudo, mas que se reflete concretamente também no alívio e no conforto de tantos sofrimentos humanos. Testemunham-no os milagres com que curou Jesus doentes e ressuscitou mortos. Todavia, não veio Jesus trazer mensagem de felicidade terrena nem instaurar neste mundo uma era da qual seja excluído todo pranto e toda dor. Veio antes tomar sobre si o peso do sofrimento humano para transformá-lo em meio de salvação e, portanto, de felicidade eterna na pátria bem-aventurada, a única onde não "haverá mais luto, nem pranto, nem dor" (Ap 21,4). É a vida do homem remido por Cristo começo dessa felicidade sem fim.
A "grande alegria" trazida por Jesus é tão verdadeira que pode passar através de sofrimento de toda espécie, sem ficar sufocada. Aliás, indicou Jesus, justamente nas tribulações abraçadas por amor de Deus, o caminho que conduz à bem-aventurança: "Bem-aventurados os pobres, os aflitos, os famintos, os perseguidos" (Mt 5,3-10).
O mistério pascal de Cristo é todo um entrelaçar de dor e de alegria, de morte e ressurreição. A vida do cristão, que brota desse mistério e nele se funda, reproduz-lhe as características. Como o mistério pascal não termina com a paixão e morte de Cristo, mas, através da dor e da morte, culmina na ressurreição, assim a vida cristã, através das tribulações terrenas, está constantemente orientada para a alegria eterna. Experimenta o cristão a dura realidade da dor; todavia, não tem visão pessimista da vida, porque sabe que qualquer sofrimento é meio precioso para associar-se à paixão de Cristo e, portanto, também à sua ressurreição.
Necessita o homem de ser libertado do pecado e também de suas conseqüências: a dor e a morte. Prescindindo do Evangelho, constituem essas amargas realidades enigma que esmaga o homem! Somente Cristo pode iluminá-las e torná-las aceitáveis (GS 22). Ao assumir a responsabilidade dos pecados da humanidade, assumiu também Cristo suas conseqüências: sua imolação transformou assim a dor e a morte - herança da culpa - em instrumento de redenção, de salvação. "Sofrendo por nós - afirma o Vaticano II - não só nos deu o exemplo para seguirmos suas pegadas, mas nos abriu também o caminho. Se o percorrermos, nossa vida e morte serão santificadas e adquirirão novo significado" (ibidem). Não pode, portanto, o cristão considerar o sofrimento como infelicidade a evitar por todos os meios, ou como acontecimento indesejável a que se há de submeter forçosamente; nem só como castigo do pecado, mas como meio de salvação, porque meio de comunhão com Cristo morto e ressuscitado para remir a humanidade pecadora. É o sofrimento porta que introduz o homem no mistério pascal do Senhor e o leva a vivê-lo como paixão e morte, para dispô-lo à ressurreição. Impossível é participar da ressurreição de Cristo, se antes não padecemos e morremos com ele.
Todavia, o sofrimento repugna ao homem, criado para a felicidade; e não despreza Deus seus gemidos. Jamais repeliu Jesus os atribulados que recorreram a ele; às vezes provou sua fé tratando-os com aparente dureza, como fez com o oficial romano que implorava a cura de seu filho (Jo 4,46-51), mas finalmente interveio em seu favor. Assim também quando não concede Deus alívio e permite o sofrimento, cumpre continuar a confiar nele. Só ele sabe o que convém para o verdadeiro bem de cada um. Certas tribulações que, humanamente falando, parecem absurdas e injustas, têm lugar bem preciso nos seus desígnios divinos; da aceitação delas pode depender a salvação pessoal e a de muitos irmãos. "Deus colabora em todas as coisas para o bem dos que o amam" (Rm 8,28).
Frei Gabriel de Santa Maria Madalena, O.C.D

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